Por Miriam de Sales Oliveira*Antigamente, quando o mar não estava pra peixe e a inflação mais alta que o Himalaia, os mais velhos diziam: “A vida está pela hora da morte”. Na França, anos atrás, o prefeito de uma cidadezinha de província, proibiu todo mundo de morrer porque não tinha mais espaço nos cemitérios e os vizinhos, pelo mesmo motivo, se negavam a hospedar os defuntos imigrantes.
Pois não é que chegou a vez de Salvador que, como cidade altamente civilizada não iria deixar a França lhe passar a perna?
Então, para morrer e ser enterrado aqui tem que tirar senha, isso nas Quintas dos Lázaros, cemitério dos mais pobres, gente que passou toda a vida de fila em fila, lutando para viver e agora tem que disputar no palitinho um lugarzinho humilde para se enterrar.
Assim, antes do nascer do sol, as filas para pegar a senha já se formam, menos para as funerárias privilegiadas que conseguem senhas sem o menor esforço, a não ser enfiar a mão no bolso e molhar a mão do funcionário – então vocês não sabem que a sagrada instituição da propina vem desde o Descobrimento e, de tão antiga, deveria constar da própria Constituição? Isso se não fôssemos uma sociedade de hipócritas!
Segundo eu li, a coisa se passa assim: você liga para o cemitério, alguém atende e pede para você chegar cedo, pois, só estão sendo distribuídas seis senhas por dia e, se você perder a hora, ferra-se, tem que guardar o defunto em casa.
Até parece que a pessoa estava ligando para o SAC tentando tirar um passaporte, veja que situação! E assim como nascem muito mais pobres do que ricos, morrem também, pois balas perdidas, policiais truculentos, drogas, maus tratos e péssimo atendimento médico, dão sua valiosa contribuição para o “passamento”, mesmo que o cara tenha sido alimentado a mingau de cachorro e comido charque com farinha seca, pois, pobre é um bicho renitente e recusa-se a morrer mesmo com todas as disposições em contrário e os governos unidos fazendo tudo para acelerar o “passamento”.
A morte é feia, seja para pobres ou privilegiados, dela ninguém escapa, nem o rei, nem o bispo e nem o papa, como diziam os versinhos da minha infância, mas, pelo menos, a população tão sofrida, deveria estar livre desta angústia e humilhação. Com a palavra o Governo!
imagem: reprodução/Facebook
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